
O vento sopra quando quer. O sol produz enquanto há luz. O desafio do sistema elétrico é fazer com que parte dessa eletricidade continue disponível quando a geração cai ou a demanda sobe. É isso que está por trás do leilão de baterias que o Brasil prepara para dezembro: sistemas de grande porte capazes de receber energia da rede, armazená-la e devolvê-la quando o Operador Nacional do Sistema (ONS) precisar.
Em 2015, a mesma dificuldade ganhou uma expressão improvável. A então presidente Dilma Rousseff falou em “estocar vento” ao discutir fontes renováveis em uma agenda em Nova York. A frase virou meme. A formulação era tecnicamente imprecisa — não se guarda vento —, mas o problema que ela tentava explicar era real: como lidar com uma fonte que não produz o tempo todo e como aproveitar depois a eletricidade gerada quando ela está disponível.
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Quando “estocar vento” virou meme
A frase ganhou força nas redes em 2015 e virou matéria-prima para montagens e remixes. O contexto era técnico: Dilma comparava hidrelétricas com reservatórios à geração eólica, que depende do vento. Em discurso oficial de 2012, ela já havia feito essa distinção entre armazenar água e lidar com uma fonte variável.
Em 2025, a expressão voltou ao vocabulário do setor de forma assumidamente metafórica. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, usou “estocar o vento” ao falar de baterias para guardar eletricidade produzida por fontes renováveis. A metáfora continuou imprecisa; a tecnologia, não.
O que as baterias realmente armazenam
Não se armazena o vento. Ele movimenta as pás da turbina, o gerador produz eletricidade e o sistema de baterias recebe essa energia. A bateria a conserva em forma química e depois devolve eletricidade à rede quando necessário.
Essa é a lógica dos BESS, os sistemas de armazenamento em baterias. No leilão de baterias, o governo não pretende apenas comprar equipamentos: vai contratar disponibilidade de potência para resposta ao comando do ONS.
Em 2015 as baterias já existiam: o que mudou?
Seria errado dizer que em 2015 não havia armazenamento de energia em grande escala. A Agência Internacional de Energia registrou que o investimento em baterias conectadas à rede havia crescido dez vezes desde 2010. Outras soluções, como hidrelétricas reversíveis, também já existiam.
O que mudou foi a escala. Custos caíram, a eletrônica avançou e solar e eólica cresceram. Com mais geração variável, aumentou o valor de tecnologias capazes de deslocar energia de um horário para outro.

Leilão de baterias reúne 6.091 projetos cadastrados
O interesse pelo leilão de baterias apareceu antes mesmo da competição. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) recebeu 6.091 projetos, somando 296.807 MW de potência cadastrada — recorde de participação em certames do setor elétrico brasileiro.
Isso não significa que todos serão construídos. O cadastramento é apenas uma etapa; ainda haverá habilitação, competição e seleção. Os 296.807 MW também não representam potência já contratada.
Como serão os dois primeiros leilões
A audiência pública da Aneel em 1º de setembro discutiu editais e contratos do leilão de baterias. Cerca de 70 pessoas participaram presencialmente, 200 acompanharam pela internet e 11 expositores falaram. As consultas seguem abertas até 14 de setembro.
O Armazenamento Nacional está previsto para 2 de dezembro e exige baterias fabricadas no Brasil. O Armazenamento Geral, marcado para 4 de dezembro, não tem a mesma exigência. Os contratos duram 15 anos, com suprimento a partir de 1º de agosto de 2028.
Os sistemas deverão ter pelo menos 30 MW, entregar potência por quatro horas, aceitar até dois acionamentos diários e recompor a carga em até seis horas. O BNDES lista fornecedores como WEG, Moura, BYD, Gotion, Trina, TBEA e You.On; isso não significa vitória no leilão de baterias.
Por que o Brasil precisa guardar energia
Sol e vento não obedecem ao relógio do consumo. Pode haver muita geração solar no meio do dia e maior necessidade de potência horas depois. A eólica também varia com as condições meteorológicas.
As baterias podem carregar quando há energia disponível e entregar potência depois. É essa flexibilidade que dá sentido ao leilão de baterias: criar uma reserva rápida para um sistema com mais fontes variáveis.
Baterias ajudam, mas não resolvem tudo
O Brasil já enfrenta cortes de geração eólica e solar por restrições operacionais ou de transmissão. Em julho, o Ministério de Minas e Energia regulamentou compensações ligadas a cortes ocorridos entre setembro de 2023 e novembro de 2025.
As baterias podem aproveitar excedentes e dar flexibilidade ao sistema, mas não substituem transmissão nem eliminam sozinhas o curtailment. O leilão de baterias acrescenta uma ferramenta; não resolve todos os gargalos.
O que Rondônia tem a ver com isso
Rondônia integra o Sistema Interligado Nacional, embora ainda existam localidades isoladas no estado. Mais flexibilidade e reserva de potência no SIN podem produzir efeitos sistêmicos também no sistema Acre–Rondônia.
Até esta apuração, nenhum projeto específico de Rondônia foi confirmado entre os 6.091 cadastrados. Também não há anúncio de bateria de grande porte para Porto Velho. Por enquanto, o recorte local é sistêmico, não um investimento estadual confirmado.
Fontes: Aneel — audiência pública; Aneel — consultas e regras; EPE; BNDES; MME — cortes de geração; Presidência — discurso de 2012; IEA; e MME — Sistema Interligado Nacional.
































