terça-feira, setembro 8, 2026
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Rio Madeira entra no foco de novo relatório sobre peixes da Amazônia

Relatório reúne evidências sobre mais de 2,7 mil espécies de água doce na Amazônia, enquanto o recorte de Rondônia chama atenção para barragens, migração e transformação da atividade pesqueira histórica.

Peixes do rio Madeira em composição editorial com dourada e outras espécies amazônicas
Composição editorial representa espécies amazônicas no rio Madeira em pauta sobre conectividade, migração e pesca.

Um novo relatório internacional sobre os peixes do rio Madeira recolocou Rondônia no debate sobre conectividade dos rios e migração de espécies. O documento cita o Madeira ao tratar das barreiras enfrentadas pela dourada e das mudanças que atingiram a pesca tradicional na região da antiga Cachoeira do Teotônio, em Porto Velho.

Lançada nesta terça-feira (8), a quarta edição de Peixes Esquecidos da Amazônia reúne e atualiza evidências sobre mais de 2,7 mil espécies de peixes de água doce na Bacia Amazônica. O número corresponde a cerca de 15% das espécies conhecidas no mundo, e aproximadamente dois terços ocorrem exclusivamente na região.


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O que diz o novo relatório sobre os peixes amazônicos

Liderado pela The Nature Conservancy (TNC), o relatório não apresenta as 2,7 mil espécies como uma descoberta feita agora. O trabalho reúne conhecimento científico e ecológico sobre a diversidade já conhecida e procura mostrar como rios conectados, áreas alagadas e outros ambientes de água doce sustentam tanto os peixes quanto a alimentação, a renda e a cultura de populações amazônicas.

Entre as pressões apontadas estão fragmentação de habitats, barragens, poluição, sobrepesca e mudanças climáticas. No recorte de Rondônia, os peixes do rio Madeira entram nesse debate porque a conectividade do sistema fluvial é decisiva para espécies que percorrem grandes distâncias ao longo do ciclo de vida.

O documento também aponta medidas como proteção de rios livres, recuperação da conectividade, melhoria da qualidade da água e fortalecimento do manejo comunitário. A agenda do Comitê de Pesca da FAO prevê uma apresentação internacional do relatório em 11 de setembro, com destaque para a diversidade amazônica e para o papel das pescarias continentais na segurança alimentar e nos meios de vida.


Por que os peixes do rio Madeira entram nesse debate

O rio Madeira aparece como um exemplo concreto do que ocorre quando rotas de longa distância deixam de manter a mesma conectividade. A reportagem da Agência Brasil sobre o relatório destaca a dourada (Brachyplatystoma rousseauxii), peixe que percorre milhares de quilômetros durante seu ciclo de vida, e relaciona o caso às barreiras existentes no Madeira.

A publicação registra que as barragens interromperam antigas rotas migratórias e associa esse processo a mudanças nos estoques pesqueiros e na atividade historicamente desenvolvida na região do Teotônio. Para os peixes do rio Madeira, esse recorte aproxima um debate de dimensão amazônica de um território diretamente ligado à história de Porto Velho.


Estudos ajudam a medir mudanças na pesca

Um estudo publicado em 2025 na revista científica River Research and Applications analisou desembarques pesqueiros entre 2000 e 2019 em Guajará-Mirim, a montante das barragens, e Humaitá, a jusante. Entre os autores está Raniere Garcez Costa Sousa, do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), em Porto Velho.

Na área estudada a montante, os desembarques totais caíram 60,76% na comparação entre os períodos anterior e posterior às hidrelétricas. Para espécies migradoras de longa distância, a redução foi de 81,45%; para migradores regionais, de 85,50%.

Os números ajudam a dimensionar mudanças registradas nos desembarques dos peixes do rio Madeira. A dourada apresentou um dos resultados mais fortes: os desembarques registrados no estudo caíram 91,01%.

O que esse percentual significa

A queda de 91,01% se refere aos desembarques de dourada analisados no estudo. O percentual não significa que 91% da população total da espécie tenha desaparecido do rio Madeira.

Peixes do rio Madeira em composição editorial sobre migração de espécies amazônicas
Faixa editorial sobre conectividade do rio Madeira, migração de peixes e mudanças na pesca.
Composição editorial: AgoraRO.


Teotônio ajuda a entender a transformação da pesca tradicional

O impacto territorial também aparece em um trabalho dedicado à Cachoeira do Teotônio. O estudo de Igor Rechetnicow Alves Sant’Anna, Edson Rubens Ferreira Rodrigues, Danielle Mendonça Pinto e Carolina Rodrigues da Costa Doria descreve uma pesca altamente especializada que existia antes da formação do reservatório.

Os pescadores combinavam conhecimento das correntezas, pedrais e espécies com técnicas próprias para capturar, principalmente, bagres migradores. A história dos peixes do rio Madeira se cruza, nesse ponto, com conhecimentos acumulados por gerações de pescadores sobre correntezas, áreas de passagem e comportamento das espécies.

Com a submersão da cachoeira e a mudança do ambiente, práticas e locais historicamente utilizados tiveram de ser substituídos ou adaptados. Assim, é mais preciso dizer que a pesca tradicional ligada aos antigos pedrais do Teotônio foi profundamente desestruturada e transformada do que afirmar que toda a pesca no Madeira desapareceu.


Ciência sobre o Madeira também passa por Rondônia

O debate não é produzido apenas fora da região. A participação de pesquisadores ligados à UNIR aparece tanto nos estudos sobre desembarques quanto na documentação da pesca tradicional de Teotônio.

Raniere Garcez Costa Sousa consta no estudo de 2025 com vínculo ao Departamento de Geografia da UNIR. Carolina Rodrigues da Costa Doria é coautora do trabalho sobre Teotônio e aparece na programação da FAO para a apresentação internacional do relatório em 11 de setembro.

O novo relatório, portanto, vai além de uma contagem abstrata da biodiversidade amazônica. Para Porto Velho, ele toca em questões já documentadas nos peixes do rio Madeira: conectividade, migração, desembarque pesqueiro, conhecimento tradicional e adaptação de comunidades a um ambiente que mudou.